O Ângulo Obtuso

Sobre fazer amigos na fila do hospital

Manhã de um domingo que deveria ser ocupado. Talvez por isso a cama estivesse tão sedutora.
Estiquei o braço para desligar o climatizador. Dez centimetros me faltavam. Quisera eu ter poderes jedis. Ou um controle remoto.
Tento ignorar a lógica e vencer os dez centimetros. Tragédia anunciada.
Eu cai.
Com a graça e a destreza de um mamute praticando capoeira. Todo o peso em cima de um inocente braço esquerdo despreparado.
Considerei pertinente a ideia de ir ao hospital. Fui.
Fila de fraturas está entre as coisas mais divertidas em um hospital. Não que tenha muita coisa divertida em um hospital.
Nem que eu seja um adorador de tragédias. Não que eu não seja.
Enfim.
A filha estava preocupada com um festival de música. A mãe estava espirituosa.
– Não é um festival sertanejo? Agora você tem uma bota nova!
O menino estava esperando o gesso. Tentei anima-lo.
– Pensa pelo lado legal! Você vai poder deixar as meninas assinarem!
Ele sorriu. Eu não muito. Não ter tido trauma suficiente para engessar o braço quando criança é meu maior trauma infantil. Nunca assinaram. Triste. A mãe dele perguntou sobre o meu caso.
– Cai da cama.
– Sozinho?
– Sim. Eu sou um desastre ambulante. Mesmo deitado.
O rapaz sentado a minha frente estava com problema no braço.
– Futebol ou também caiu da cama?
– Cai do ombro do meu amigo.
A namorada dele ria misturando sarro com reprovação. Ao melhor estilo “eu avisei que ia dar errado”. O Raio X revelou que era apenas uma luxação. Convidaram-me para alguma coisa qualquer dia.
Faltou pegar contato.
Esperei a minha vez fazendo mais amigos. O senhor que tropeçou na calçada. A senhora que inventou de usar salto alto e seu marido que não desgrudava do joguinho do celular. A menina que caiu da árvore.
E a técnica radiológica com voz sexy.
– Senta ali. Agora vou cuidar de você.
Talvez a voz nem fosse tão sexy assim. Mas a meia luz vermelha na sala deixaria qualquer coisa sexy.
– Não se mexa. Não respire. Pronto.
Acho que vou escrever uma canção sobre esta moça. Estilo Barry White. Ou Prince. Ela me mandou embora e eu disse obrigado.
Depois o médico me chamou com o veredito. Nada grave.
– Foi só o tendão. Podemos imobilizar ou simplesmente cuidar e tomar analgésicos.
– Só analgésicos.
A tentação pelo gesso foi grande. Voltei caminhando. Aproximei o climatizador uns dez centimetros mais próximo da cama.
Era tarde de um domingo que deveria ter sido bem ocupado.
E foi.

Entre a lua e um cometa

Foi em um daqueles momentos de descuido, em que o coração grita e a razão se cala, que ele apareceu.
Sem pretensão alguma, do tipo que era só um cara.
Elogiou meu olhar, me convidou para sair e foi como se eu fosse a única mulher do mundo.
Pegou na minha mão, me levou para ver as estrelas e disse que queria parar o tempo.
Tudo o que se passou naquele momento parece ter saído de um daqueles romances bobos que a gente lê pra esquecer do mundo.
Toda a sensação de andar em nuvens e ter borboletas no estômago era exatamente como eu imaginava.
Ali, entre a lua e um cometa, eu me entreguei.
E entre o beijo entorpecente e o café forte pra me acordar, ele me apresentou o paraíso.
Num daqueles momentos em que a razão se recupera e o coração se acalma, eu me lembro que, sem pretensão, era só um cara.
Mas eu era a única mulher do mundo.

Sobre o pacote e o manual (ou “sobre o amor”)

A gente nasce e recebe um pacote. Um pacote quadrado com o volume de um litro.
O pacote contém uma substância instável e altamente inflamável.
Complexa e questionável. Talvez intraduzível.
O pacote contém amor.
Várias informações vêm direto na embalagem.
Cuidado ao abrir. Não chacoalhe. Este lado para cima. Produto frágil.
E em letras garrafais: Não desperdice.
Acompanha um manual minucioso com as informações melhor explicadas.
Todas elas direcionadas para o mesmo objetivo.
Não gaste o amor com quem não merece.
Procure pesquisar e conhecer bem antes de abrir o pacote.
Tenha paciência para esperar o momento certo.
Sinto que as pessoas entendem esse manual cada vez mais cedo.
Infelizmente eu não recebi manual algum com o meu pacote. O próprio pacote estava pouco legível.
Então desperdicei.
Usei com os meus amigos de infância. Com a minha família.
Com o time de futebol e o grupo de teatro.
Gastei uma boa quantidade com o senhorzinho de bengala que sempre puxava assunto no ponto de ônibus.
E usei muito com as minha namoradas. Com todas.
Com a menina que conheci um dia e nunca mais vi.
Com a moça de vermelho que sorriu pra mim no caminho do trabalho.
Chacoalhei e abri sem cuidado algum.
Correndo até o campinho. Enquanto pulava o muro do colégio.
Invadindo a construção. Deitado naquela grama verde.
Venho desperdiçando o conteúdo do meu pacote desde que me conheço por gente.
Deixo este alerta para você que ainda não leu o manual.
Não desperdice.
Não seja irresponsável como eu.
Até pensei em maneirar. Mas que adianta?
Meu pacote deve estar no fim.
Pode ser que acabe com a próxima mulher da minha vida.
Ou com um sorriso na esquina.

Sobre o tiozinho que vende cocada

Sempre que eu pego o biarticulado na Estação Eufrásio Correa ele está lá.
Exatamente no meio da estação.
Apoiado no ferro suporte. Cesta ao seu lado.
Não tenho certeza se conheço a sua voz.
Eu digo que quero e entrego o dinheiro.
Ele agradece e eu pego uma cocada. As vezes duas.
Não sei se ele foi dependente químico.
Se é de algum grupo religioso.
Se tem alguma doença complexa e não consegue emprego.
Ou se só está ali pela diversão.
Mas ele sempre está ali. E eu sempre compro.
Eu levava para a minha mãe.
Ela parou de consumir doces e eu comecei a levar para a minha namorada.
Ela deixou de ser minha namorada e eu levava para o meu chefe.
Mudei de emprego e continuo levando.
Para uma amiga. Para o porteiro.
Para quem estiver passando na rua.
Sempre que eu pego o biarticulado naquela estação ele está lá.
Eu sempre compro uma. As vezes duas.
E eu nem gosto de cocada.

Sobre a guria com uma harmônica

Eu estava tentando dormir quando percebi aquele som característico.
Busquei a origem. Caminhei até a janela.
Na janela do bloco de frente ao meu eu encontrei.
Cabelos claros e óculos com armação generosa.
Vestido branco e algumas tatuagens.
E uma harmônica.
Ela tocava com caretas e com sentimentos.
Entre notas me notou e parou.
Ela sinalizou desculpas pelo barulho.
Eu sinalizei um pedido de bis.
Busquei café e ela arriscou um Bob Dylan.
Notei na parede inúmeros desenhos inacabados.
E uma lagosta. Interessante.
Ela terminou e eu aplaudi.
Sorriu um pouco tímida e fechou as cortinas.
Deitei para dormir com aquele som característico ainda na cabeça.
E imaginei a próxima noite. Mais harmônica e lagosta.
Ou talvez uma dança flamenca.

Sobre o dia que eu fui machista

Era uma dessas noites chuvosas. Sem guarda chuva. Andava por uma dessas ruas pouco movimentas e notei um sujeito abordando uma garota. Aproximando-me percebi que se tratava de uma tentativa de assalto. Aproximei-me mais.
– Desculpe. Algum problema?
Súbito ato heroico suicida.
– Sai daqui. Não é contigo.
O sujeito não precisaria de muito esforço pra me nocautear.
– Acho que a bolsa não é sua.
Ele me encarou. Eu me arrependi dos meus pecados. Ele desistiu e foi embora.
– Foi por quase.
– Eu teria me virado sozinha.
Não era o tipo de agradecimento que eu esperava.
– Desculpe?
– Você se intrometer. Foi meio machista.
– De onde eu venho chamam de cavalheirismo. Mas hoje em dia nem sei.
– Se eu fosse um homem? Você teria ajudado?
– Se você fosse um cachorro eu teria feito a mesma coisa.
Talvez não tenha sido minha melhor resposta. O olhar dela demonstrava uma vontade de me agredir maior que a demonstrada pelo sujeito anterior.
– Está me comparando a um cachorro?
– Depende. O PETA vai me punir por isso?
Ela riu. Achou que eu não percebi e ensaiou me bater. Mas ela riu.
– Você é um idiota.
– Talvez eu seja. Onde você mora?
– É perto daqui. Do lado do… Por que você quer saber?
– Pra te acompanhar. Você ainda está tremendo.
Ela realmente estava. Não disse nada. Caminhou três passos e me ofereceu espaço no guarda chuva.
– Agora não faz muita diferença. Mas obrigado.
Algumas curvas e chegamos à portaria do prédio dela. Ela me olhou.
– Obrigada. Você foi cavalheiro.
Eu sorri e ela correspondeu. Antes de entrar ela se despediu com calma. E com um beijo no final.

Fui pra rua

O telefone tocou.
– Vem pra rua?
– Me dá carona?
Deixamos o carro no meio do caminho e continuamos a pé.
– Protestar é o novo happy hour.
Risos. Chegamos e nos surpreendemos.
– É, tem bastante gente.
– Mas não lotaria um estádio.
Tirei a câmera da mochila. Gritos, cantos, bandeiras e cartazes. Valia tudo.
– Abaixa! Abaixa!
Quase tudo. Encontrei amigos pela direita e pela esquerda.
– E agora, pra onde vamos?
– Acho que pra lá.
Seguimos para o outro lado. Depois paramos e cantamos o Hino.
– Bonito!
– Não gosto disso. Não é pela pátria, é pelo povo.
E definitivamente não era por 20 centavos.
– É por muito mais!
Mas ninguém me explicou em poucas palavras. Seguimos até o Palácio.
– Sem vandalismo!
Picha. Limpa. Cartazes. Meio Mastro.
– E agora?
– Parecemos um cachorro que alcançou o carro.
Encontrei amigos de formação. Maioria um tanto emocionada com a coisa toda.
– E você? Não tá feliz?
– Ah, mas alguém podia pelo menos tropeçar.
Alguns não pacifistas tentaram invadir. A polícia tentou evitar. Eu tentei tirar uma boa foto.
– Eu estou sangrando?
– Está!
Bomba no pé, estilhaço na cara e pimenta nos olhos.
– Acho que quero um Band-Aid.
– Eu quero uma Coca-cola!
O telefone tocou outra vez.
– Você está bem?
– Sim. Eu me machuco mais no futebol.
Esperamos até o momento em que não aconteceria mais nada. Fui pra casa sozinho.