Sobre fazer amigos na fila do hospital

por Fernando Favero

Manhã de um domingo que deveria ser ocupado. Talvez por isso a cama estivesse tão sedutora.
Estiquei o braço para desligar o climatizador. Dez centimetros me faltavam. Quisera eu ter poderes jedis. Ou um controle remoto.
Tento ignorar a lógica e vencer os dez centimetros. Tragédia anunciada.
Eu cai.
Com a graça e a destreza de um mamute praticando capoeira. Todo o peso em cima de um inocente braço esquerdo despreparado.
Considerei pertinente a ideia de ir ao hospital. Fui.
Fila de fraturas está entre as coisas mais divertidas em um hospital. Não que tenha muita coisa divertida em um hospital.
Nem que eu seja um adorador de tragédias. Não que eu não seja.
Enfim.
A filha estava preocupada com um festival de música. A mãe estava espirituosa.
– Não é um festival sertanejo? Agora você tem uma bota nova!
O menino estava esperando o gesso. Tentei anima-lo.
– Pensa pelo lado legal! Você vai poder deixar as meninas assinarem!
Ele sorriu. Eu não muito. Não ter tido trauma suficiente para engessar o braço quando criança é meu maior trauma infantil. Nunca assinaram. Triste. A mãe dele perguntou sobre o meu caso.
– Cai da cama.
– Sozinho?
– Sim. Eu sou um desastre ambulante. Mesmo deitado.
O rapaz sentado a minha frente estava com problema no braço.
– Futebol ou também caiu da cama?
– Cai do ombro do meu amigo.
A namorada dele ria misturando sarro com reprovação. Ao melhor estilo “eu avisei que ia dar errado”. O Raio X revelou que era apenas uma luxação. Convidaram-me para alguma coisa qualquer dia.
Faltou pegar contato.
Esperei a minha vez fazendo mais amigos. O senhor que tropeçou na calçada. A senhora que inventou de usar salto alto e seu marido que não desgrudava do joguinho do celular. A menina que caiu da árvore.
E a técnica radiológica com voz sexy.
– Senta ali. Agora vou cuidar de você.
Talvez a voz nem fosse tão sexy assim. Mas a meia luz vermelha na sala deixaria qualquer coisa sexy.
– Não se mexa. Não respire. Pronto.
Acho que vou escrever uma canção sobre esta moça. Estilo Barry White. Ou Prince. Ela me mandou embora e eu disse obrigado.
Depois o médico me chamou com o veredito. Nada grave.
– Foi só o tendão. Podemos imobilizar ou simplesmente cuidar e tomar analgésicos.
– Só analgésicos.
A tentação pelo gesso foi grande. Voltei caminhando. Aproximei o climatizador uns dez centimetros mais próximo da cama.
Era tarde de um domingo que deveria ter sido bem ocupado.
E foi.

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